segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Confissão

Só quando encarei o seu olhar, me dei conta de que era você quem estava parado bem na minha frente e tudo o que eu consegui pronunciar foi "Oi". Você não parava de falar e eu parecia uma idiota sem falar nada. Mal você sabia o que se passava em meus pensamentos, mas desconfio que sabia. Meu coração disparou desesperadamente e de repente eu não soube mais o que dizer ou fazer e aquele seu sorriso torto me fez relembrar tudo o que passamos juntos e me fez pensar que eu queria tudo aquilo de volta. Eu queria você de volta.
Eu queria sentir tudo aquilo que eu ainda sinto de novo, eu queria te dizer que ainda te amo e que você ainda consegue me deixar sem graça e sem palavras. Eu queria te dizer, mas não pude. Não consegui.
Embora houvesse um turbilhão de emoções dentro de mim, eu sabia que sentir tudo isso era errado. Te amar era errado - ou será que eu te amei errado? Mas eu ainda queria te amar, mesmo sabendo que não poderia.
Contudo, eu não resisto ao seu sorriso torto ou ao seu profundo olhar. Conheço todas as suas manias. Sinto que jamais deixarei de te amar... E quanto a você, ainda sente alguma coisa por mim?
Eu ansiei tanto por aquele momento (obra do destino, talvez) e quando ele finalmente aconteceu, não fui capaz de pronunciar uma palavra sequer. Fui inútil.
De repente me dei conta de que você estava indo embora (novamente) e tudo o que eu queria ter dito, não consegui dizer. Foi a minha última chance de dizer tudo o que sinto, porém, não consegui. Falhei e perdi. 
Foi quando eu entendi que o nosso breve reencontro, foi o bastante para eu entender que você jamais voltará a ser meu.
Em pensar que eu ainda te amo tanto...  

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Disciplina

Certa vez, quando minha mãe estava separando livros antigos para dar embora, logo separei uma pilha para mim e nessa pilha que separei, estava aquele livro velho, com páginas amareladas e cheirando a mofo. Sua capa era dura e verde, em dourado estavam escritos o seu título e o nome de uma das minhas escritoras favoritas: Lygia Fagundes Telles
O nome da obra me fez logo pensar em um óbvio conto romântico, então comecei a ler o meu novo livro. E foi quando o óbvio se tornou novo para mim...
Descobri que a "Disciplina do amor" era um livro de ensaios, publicado em 1.980 e dedicado para Goffredo, filho da autora. Descobri ainda, que o livro não tinha uma história mas, sim, várias. Li algumas páginas e logo deixei o livro de canto, afinal, o que o título tinha a ver com o conteúdo do mesmo? Era um livro sem romance, não fazia sentido - pelo menos não naquele instante.
Tempos depois voltei a lê-lo, para mim, havia um desafio inacabado para entender e foi então que entendi (e percebi) o verdadeiro sentido da coisa. Aliás, já reparou que quando dizemos AMOR, logo pensamos no amor entre dua pessoas? Namoro, casamento, essas coisas... Enfim, "A disciplina do amor" me ensinou o que realmente é o amor e como ele nos disciplina. Descobri que o amor está em tudo e em todos! Aprendi a amar de verdade, porque o amor existe em cada ato, palavra, pensamento e sentimento.
Certamente, Lygia Fagundes Telles estava convicta sobre o que escrevia e foi ótimo eu ter separado esse livrinho para ler, eu aprendi a amar dessa maneira tão diferenciada e ao mesmo tempo tão comum e maravilhosa. Aprendi que o amor está em cada simples gesto, em cada palavra. Aprendi a amar tudo e a me amar. Ah, o amor... 

PS: Leiam o livro :)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"Os ombros suportam o mundo"


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. 
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco. 
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos. 
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)

A um ausente


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

(Carlos Drummond de Andrade)
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